Os últimos dias estão diferentes. Há muitas nuvens carregadas e cinzentas lá no céu. O frio é cortante, ultrapassa a pele. Faz doer os ossos. O som do silêncio é invadido pela harmonia de “On the Nature of Daylight” do compositor Max Richter.

A composição ultrapassa os limites da razão e sinto. A lágrima desce solitária pela face a medida que os sentidos da audição ficam apurados. Sinto a vida perpassar pelos meus olhos fechados em deleite. A melodia parece me abraçar com todas as imperfeições que atravessam minha alma. Só existe eu, naquele momento, e o som ecoando pelo ambiente, me abraçando e me fazendo sentir. Sentir e sentir.

Compartilho esse silêncio melódico com os cômodos vazios da casa. Porque você foi embora.

Sabe aquela sensação dilacerante de ver um amor se transformar em outra coisa? Não digo ódio porque dizer que ódio é o contrario do amor é ser muito simplista na definição do sentimento. Acredito que o contrario de amor é algo relacionado com vazio. É aquela fissura que não traz nada além da dor da sua partida, que foi sem aviso.

É impossível preencher essa fissura com algo. Não sinto raiva. Fui imersa em um estado de perplexidade diante da incerteza do amanhã sem a tua presença. Não sinto ódio.

Sinto um vazio. Nada mais.

em um estado de perplexidade permanente com aquilo que chamam de amor

em um estado de perplexidade permanente com aquilo que chamam de amor