Naquela parede da sala onde a desorganização dos dias se faz presente, emoldurei meus afetos. Introjetei a noção de que se todo mundo constantemente passa por lá, a ideia de observar detalhes torna-se obsoleta. Eu estaria segura. Ninguém olharia para os defeitos das minha molduras, muito menos para as qualidades.

E assim se sucedeu. Dia após dia, entre Sol e gotas de chuva eu permanecia ali ao mesmo tempo em que o outro não me percebia. E é através do olhar do outro que existimos. Tem que existir começo para existir o fim, tem que existir mal para ter o bem, tem que existir “você” para existir um “eu”.

Quem sou eu? Em qual reta paralela eu fui me perder? Em qual curva fui deslizar para chegar onde estou aqui hoje? E onde é que quero chegar?

Cada experiência perturbadora que rodeia a minha existência me paralisa diante de uma experiência semelhante. O “não saber o que vai acontecer” desorganiza tudo aqui dentro. Um organizar-se e desorganizar-se cansativo demais quando as dores são mais frequentes que as alegrias.

E a lágrima traduz o que a palavra não é capaz de dar sentido. No meu íntimo eu sei que nem tudo tem sentido e nossa busca incessante por ele gera a angustia que não conseguimos nomear, nem compreender.

Estou angustiada, confesso. Eu quero fugir de mim e por assim dizer do outro também. Eu sinto diariamente um esmagamento silencioso da minha subjetividade.

Eu sinto saudade de coisas que nunca me aconteceram. Tenho o desejo inconsciente de querer caber dentro do querer/desejo do outro. Sinto a incompreensão de ser e estar aqui, neste momento, escrevendo. Eu, constantemente, falo sobre o amor, mas as vezes o amor, machuca também.

Sentir sempre foi e sempre será um peso no meu existir. E dentro dos meus achismos a solidão está posta para todos, mesmo quando achamos que não.

em um estado de perplexidade permanente com aquilo que chamam de amor

em um estado de perplexidade permanente com aquilo que chamam de amor