Eu lembro da primeira vez que você segurou a minha mão. Estávamos no cinema. Não lembro o filme. Acho que a importância de te ter ali ao meu lado foi tão grande que meu cérebro descartou a informação sobre o filme e todo o resto e só manteve você. A forma como você assistia, seu sorriso de tempos em tempos. Seus movimentos de desconforto com a cadeira. E a sensação de te ter ali perto, de sentir seu calor, seu cheiro. A sensação da tua mão encostando na minha causando um choque, uma surpresa. Aquele encostar contido, como se você estivesse com medo de eu recusar. Mas eu jamais recusaria. Segurei sua mão com tanta delicadeza como se algo pudesse estragar aquele momento que eu queria que durasse a eternidade. Apesar das suas 2h30min - considerado por muita gente muito tempo para ficar numa sala de cinema, o filme acabou. Disso eu lembro. O tempo. Traiçoeiro. Quanto mais a gente quer que ele não exista, mais ele se mostra presente. Naquele dia, naquela hora, naquele espaço com você eu queria que o tempo não existisse. Que não tivessem relógios, que o filme não tivesse fim. Uma coisa tão simples o segurar da mão, mas tão significativa. Um carinho pontual que emana pelo corpo inteiro até atingir o local do cérebro responsável pela memória. Quando eu fecho os olhos eu consigo sentir aquele momento de forma tão real, tão intensa. Eu lembro de olhar tanto pra você porque eu queria guardar todos os teus detalhes. A memória muitas vezes nos traí, distorce. E eu não queria isso. Eu queria lembrar de você na sua forma mais verdadeira possível. Lembro também do desejo de querer te beijar ali mesmo sem cerimônia nenhuma, mas não o fiz. Tive medo de você aumentar a distância que já existia entre nós.
Freud uma vez escreveu que nos traímos por todos os poros. Ele estava certo. Qualquer pessoa que ouve teu nome saíndo da minha boca sabe o quanto eu sou apaixonada por você. Eu não consigo esconder mais. Eu sou apaixonada por você. Era só isso que eu queria te dizer, sem medo, sem culpa, sem o peso de se estar apaixonada. Queria que fosse simples. Mas nada que envolve esse tipo de sentimento é. Quer assistir mais um filme comigo? Perguntei no lugar de dizer o que sentia. E você disse sim. Qualquer dia desses a gente marca.

Mas esse dia nunca chegou.

em um estado de perplexidade permanente com aquilo que chamam de amor

em um estado de perplexidade permanente com aquilo que chamam de amor