Ela costumava me olhar com estrelas no lugar dos olhos. Eles brilhavam tão intensamente que chegavam a emanar um carinho inimaginável.

Hoje, dia chuvoso, melancólico, olho através da janela e me pergunto o que teria acontecido com a estrela que habitavam àqueles olhos à menção da minha chegada. Não teriam elas suportado a realidade da inexistência de perfeição?

Perfeição. Em tudo semelhante a forma do universo do mundo. Em tudo semelhante a forma como aquele poema foi escrito justamente para ti. Mas nada semelhante à forma como eu existo no mundo. Nada semelhante a forma como tu desejas ser abraçada, cuidada e amada. Nada semelhante a forma como uma amizade existe e inexiste naquele limiar entre um segundo e outro.

1 minuto. Tu me olhas e sorri.

30 segundos. Eu te amo.

10 segundos. Por favor, fica.

O tempo acabou e naquela sexta-feira mais comum da galáxia haviam cachoeiras em meus olhos. Vergonha talvez tivesse sido o sentimento consequente daquele ato que não se deve fazer em público. Por que? As pessoas não sabem lidar com a própria dor e tristeza. Creio eu que lidar com a dor outro seja mais complicado ainda. Então preferimos manter uma armadura fora de casa. Tudo sempre está bem. Afinal, é isso que todo mundo diz.

Uma sexta-feira comum havia se tornado um dos dias mais tristes que tive o desprazer de viver. E não é tão simples quanto se pensa. Ali as estrelas daqueles olhos já estavam cansadas de mim. Não sei se foram palavras ou o significado das águas criado pela cachoeira. Sei que naquele momento o brilho havia se perdido por inteiro.

A expressão coração partido não faz muito sentido no mundo científico, já que para eles é tudo muito simples: química. O amor é químico? Bom, talvez seja. Talvez não. Quem sou eu para julgar. Só sei que naquele momento a expressão fez sentido pra mim.

O céu perdeu totalmente sua cor. E tons de cinza ganharam espaço em todos os lugares. A vida perdeu a graça, o gosto e não existe nada no mundo capaz de colar aqueles pedaços quase invisíveis que são essenciais para a sobrevivência de um órgão tão importante.

Acreditei, ao menos que algo tão bonito, algo que sobreviveu à discussões e conflitos indubitaveis, não se perderia assim por conta do acúmulo, talvez, de erros. Vieram mudanças, mais incertezas.

O que eu tinha feito de tão errado para apagar um brilho magnífico?

Vive-se o passado e o futuro. O presente. Acho que ele não existe. Se nossos olhos demoram alguns segundos pra assimilar o que já aconteceu e fazemos planos dos mais diversos para amanhã ou depois. Onde estará o presente?

Dentro de incertezas talvez eu seja a sombra de um outro alguém. E isso é triste. Todas as ações são comparadas como se eu fosse uma cópia de alguém que nem conheço, que inexiste dentro da minha realidade. Que possui particularidades diferente das minhas. Que escolhe caminhos totalmente diferente dos meus.

A sensibilidade, os sonhos, a dor transformada em poesia e eu ainda continuo me sentindo sozinha. Nem sempre foi assim. No ápice da minha inocência diante da vida, achei que havia encontrado a pessoa para minha vida inteira.

Alguns diriam que a duração da vida é muito tempo. A verdade é que não é. O tempo é justamente aquele período da trajetória que o Sol faz ao redor do nosso planeta. É rápido e certeiro. Sem desvios de rota. E a vida é tão frágil. Basta segundos pra acabar.

Desatam-se os laços. Nem lembro mais do último abraço. Não foi ontem que você sorriu e disse que me amava? Não foi justamente ontem que nosso amor era leve, que tudo era intenso e bonito?

Um segundo apenas.

E eu ainda me pergunto porque essas coisas acontecem. Ainda penso que tudo pode ser diferente. De todas a boas lembranças o resultado final foi angústia. E me dói saber que de todas as pessoas do mundo eu fui a força motriz deste afeto.

A luz dos teus olhos se apagaram e a solidão quase que certeira, fez morada no lugar da tua partida. Restou apenas um vazio, que nem mesmo sessões com os mais renomados psicólogos, preencherão.

em um estado de perplexidade permanente com aquilo que chamam de amor

em um estado de perplexidade permanente com aquilo que chamam de amor