Dizem por aí que tá tudo bem.

Quando eu era criança meus pais se escondiam por detrás das grandes paredes da nossa aconchegante casa para falar dos problemas. Passavam pela porta com um sorriso no rosto como se não tivessem inúmeras dividas para pagar, como se não brigassem e esse tipo de coisa que é responsabilidade de adulto.

Tudo estava perfeitamente bem.

Eu, em minha mais completa arte de exercer a profissão de criança, fazia birra quando meus desejos não eram sanados. Eles nunca me deixavam ouvir sobre os tão temidos problema da vida humana, da vida de família.
Cresci. Vi que as coisas eram/são mais complicados do que parecem. As paredes de concreto não são capazes de sustentar o falar escondido.

Não estava tudo bem.

E esse é um dos muitos episódios que já presenciei, no qual as pessoas a minha volta ao ouvirem a pergunta "tudo bem? " só tem duas respostas em mente "sim" ou "não" e geralmente elas escolhem a primeira opção.

Não é preciso ser um sábio para perceber que estamos doentes. Viciados. Adormecidos em corpos automáticos.

Andamos com pressa, temos medo do encontro com um outro, de encostar nas pessoas, de falar que não está tudo bem.

Vi-me em uma encruzilhada quando uma pessoa querida disse que meu abraço era estranho. "Mas como assim estranho?" "Você abraça muito rápido" e ela estava certa. Abraçamos as pessoas sem ao menos sentir as batidas do seu coração. Não sentimos o quanto existe vida no outro ser humano porque estamos em uma era de "liquidez das relações".

As pessoas não se encontram mais umas com as outras porque o avanço da ciência colocou dentro da casa de cada um a internet e com ela os diversos aplicativos de mensagens instantâneas. Conversas serias estão fora de moda, se falarmos futilidades, o tempo passa mais rápido. Não é necessário explicações ou insistência para salvar um relacionamento. Hoje existe o Tinder. É possível escolher qualquer um pra sanar um vazio inexplicável e inacabável. As pessoas estão ali como um kg de arroz na prateleira do supermercado. Gostou, comprou. Não que eu esteja dizendo que usar o Tinder é errado. Respeito quem usa. Mas é que me incomoda no que tange esse escolher a dedo (literalmente) uma pessoa que você nunca viu para dividir intimidade. Isso, no mínimo, é estranho.

São mais de 500 amigos no Facebook, 1000 curtidas no Instagram e caso eu não concorde com as ideias do meu "amigo" eu o excluo da minha vida clicando em "excluir amizade". Pronto. Problema resolvido.

Estamos deixando de lutar pelas relações quando compramos a falsa ideia de substituição.

Se pararmos para pensar um pouco, uma capacidade intrínseca que temos é de olhar para o outro. Profundamente. E não fazemos mais isso porque olhamos para a tela dos smartphones. "A verdade está no olhar." Não queremos verdade, não existe verdade. Existe sensacionalismo e perspectivismo. É melhor fazer "uni duni tê" e torcer pra sorte mostrar o caminho.

Se tudo estivesse bem não teríamos aumento da depressão nos últimos anos. Jogos que levam ao suicídio, pessoas assassinadas pelas suas singularidade e assim por diante.

Se tudo estivesse bem eu não te veria tentar se esconder para chorar e abafar os problemas como meus pais.

Hoje, indo para Universidade, meu pai disse que é melhor ficar calado diante de algumas situações que o incomodam e só consegui dizer "cuidado, o senhor pode morrer engasgado" e pode mesmo... acumulo de problemas é o problema.

"Tudo bem?" não deveria estar se tornando um cumprimento como "bom dia" ou "obrigado". Cumprimento significa rotina e rotina cansa, não carrega significado, a gente só diz porque é educação básica. É obrigação social para socialização.

"Tudo bem?" Se sim, ótimo

Se não, vamos conversar.

Principalmente porque em tempos como esse, tudo bem não estar tudo bem.

em um estado de perplexidade permanente com aquilo que chamam de amor