Clarice sempre foi muito sonhadora. Certa feita cismou que queria viver um conto de fadas, corria atrás de finais felizes como quem busca um tesouro há muito escondido. Era de acreditar na finda sentença “para sempre” que tinha seu começo meio e fim sempre pré definidos pela dinamicidade da existência. Era de se afeiçoar a amores impossíveis, daqueles que só se vive através da imaginação do outro. Sempre que gostava de alguém se escondia por detrás das palavras. Escrevia para não sentir, mas sentia que cada palavra era como uma acusação de sua covardia diante das insolucionáveis questões acerca das paixões.

Não sabe em que ponto da sua vida ter medo de se envolver com alguém passou a ser parte mnêmica de suas células. Como nunca foi correspondida em suas paixões passou a acreditar que não nascera para isso. Tanto sofrimento e para que?

Certo dia acordou decidida a não mais se apaixonar por ninguém. Afinal existia no seu intimo a ideia de pareamento entre paixão e sofrimento. E assim se sucedeu. Mas quando os silêncios faziam morada no seu existir ela lembrava de M., sua última e mais avassaladora das paixões. M. a fez acreditar que o amor era possível de ser vivido, M. dava sentido a um punhado de coisas que ela já havia abrido mão de pensar. M fez uma bagunça tremenda nas sinapses do seu corpo.

A convivência com M passou a fazer parte de suas rotinas. Até que um dia num impeto de desespero lhe confessou baixinho o quanto gostava dela. Assim que terminou de falar sabia que nunca teria chance. Quanta tolice a dela em acreditar que algo assim daria certo na sua vida. Até hoje não sabe se foi o olhar, os movimentos corporais ou o clima de pesar de M depois da sua confissão, mas soube que nunca deveria ter falado nada.

O coração saltava-lhe pela boca enquanto ela tentava não chorar. M falava algo, mas ela não conseguia ouvir. Estava presa em seus próprios pensamentos. Os sentimentos ruins cobriam-lhe dos pés a cabeça. Então, sem se despedir, foi para casa e chorou tudo o que não lhe cabia.

A verdade é que depois de M ele perdeu a vontade de conhecer as pessoas. Mesmo sabendo que é impossível a existência de duas pessoas iguais buscava nos outros as sensações que M lhe causava, o frio na barriga, a ansiedade contida no sorriso, nos encontros, o olhar colorido para com os insolucionáveis mistérios do universo. Ninguém se equiparava a qualidade de M. Nunca sentira o gosto do seu beijo, muito menos desfrutara de mais que alguns segundos de seus abraços. Mas M. transformou seu mundo em algo que não se explica.

Queria que seu “para sempre” fosse com M. Mas não é. Não foi e nem será. E Clarice nem sabe em que direção dos quatro cantos do planeta o seu sentir aponta.

Sente dor. Já foi ao médico mas os exames apontam para normalidade. Disseram-lhe que era problema de coração. Mas fisicamente seu coração está funcionando bem. A dor de Clarice é aquela dor de entender que nem tudo que a gente quer a gente tem, é a dor da complexidade do sentir que se alastra em nós quando de repente nosso mundo fica de ponta a cabeça e não sabemos mais como voltar.

Clarice vive triste. Sua terapia começa semana que vem, mas não sabe se terá coragem de ouvir as próprias verdades.

Talvez a vida seja assim mesmo.

em um estado de perplexidade permanente com aquilo que chamam de amor